Irmã Deolinda Serralheiro

Reflexões sobre as leituras dominicais.

6.4.08

Domingo III da Páscoa

A liturgia deste domingo conduz-nos à descoberta de Cristo ressuscitado, que continua percorrendo os nossos caminhos, como outrora os da Palestina, animando-nos com a sua palavra e congregando-nos à volta do seu pão partido e partilhado. Convida-nos a sermos suas testemunhas diante da incredulidade de muitos dos nossos contemporâneos.

O evangelho coloca-nos diante de dois discípulos, naturais de Emaús, que abandonaram o grupo dos seus condiscípulos, decepcionados com tudo o que se passara por ocasião da morte de Jesus. Para eles tudo tinha acabado. “É verdade que algumas mulheres do nosso grupo vieram dizer que lhes tinham aparecido uns anjos a anunciar que Ele estava vivo. Mas a Ele não o vimos”, confessam ao companheiro, que deles se aproximou e fez caminhada com eles. Esse companheiro era o próprio Jesus ressuscitado, que eles não reconheceram, senão no fim da jornada, quando entrou com eles em casa e, sentando-se à mesa, “tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho”. Nesse preciso momento os seus olhos abriram-se e recordaram quanto lhes dissera pelo caminho, e como os seus corações estavam incandescentes e arrebatados. O companheiro de viagem era o próprio Jesus vivo e glorioso! Motivados pela experiência que fizeram, voltaram para trás e foram dar testemunho junto dos seus condiscípulos. É a mesma incredulidade e decepção dos discípulos de Emaús que perpassam nos cristãos dos nossos dias. Também cada um de nós tem crises e zonas de obscuridade, onde a fé parece extinguir-se diante de situações que nos desencantam e desalentam. Como costumo reagir nessas ocasiões? Procuro a palavra de Deus, sabendo que Jesus me fala e me aponta caminhos de esperança através dela? Costumo animar os irmãos desanimados com as palavras de Jesus e com os meus gestos de amor e de serviço?

A primeira leitura, utilizando o exemplo do próprio Jesus, mostra-nos como uma vida entregue é uma vida ressuscitada, porque uma vida gasta numa dinâmica de amor e de serviço nunca termina no fracasso, apesar de, por vezes, nos sentirmos frustrados e criticados pelos nossos companheiros de viagem. É este testemunho existencial que somos chamados a dar numa sociedade onde só conta o sucesso e o triunfo. Jesus mostra-nos que é morrendo que nos dá a vida verdadeira e plena. Vivo habitualmente estes valores de Jesus ou deixo-me arrastar pela lógica do mundo?

A segunda leitura conduz-nos a contemplar o projecto salvador de Deus e a grandeza do seu amor por nós, até ao ponto de nos enviar o seu próprio Filho e de o entregar à morte por nosso amor e para nossa salvação. Na sociedade em que vivemos é difícil compreender esta lógica, porque, no geral, as pessoas vivem mais voltadas para si mesmas e para os seus sonhos e projectos, do que para a felicidade e o bem-estar dos outros. Costumo contemplar a gratuidade do amor de Deus e inspirar-me nela para ser fiel e coerente na minha vida de filho e filha de Deus? O que predomina mais em mim: o egoísmo e o orgulho ou a auto-doação e a humildade?

Leituras do 3º Domingo de Páscoa
Act 2,14-33; Sl 16 (15); 1 Pe 1,17-21; Lc 24,13-35