Irmã Deolinda Serralheiro

Reflexões sobre as leituras dominicais.

3.12.06

I Domingo do Advento (ano C)


Iniciamos, hoje, um novo ano litúrgico. O Advento é a estação da esperança, ou, dito de outro modo, a estação em que o desejo é educado, no sentido de se tornar esperança. A esperança é a meta e o desejo é a partida. Em cada ano, o Advento apresenta-se-nos como uma pedagogia do desejo, e é a liturgia que nos conduz, de diversas maneiras, através das leituras e das orações que nos propõe. No Advento condensamos todas as nossas expectativas no grito «Vem, Senhor!», grito que brota da solidão, da angústia, da fragilidade e do medo de todos aqueles sentimentos que marcam, de modo brutal e doloroso, o nosso ser de pessoas incompletas e necessitadas de que alguém venha socorrer-nos. No fundo, é ao Senhor que esperamos alcançar e é o desejo dele que nos põe em andamento.

A primeira leitura, escrita por Jeremias alguns séculos antes da vinda do Senhor, num contexto de opressão social e religiosa, revela-nos que o desejo do povo escolhido se activou, na esperança do surgimento de um rei Messias, que exercesse a justiça e o direito. O profeta anuncia a vinda desse "rebento" de David que trará a paz e a segurança ao povo. Porém, este povo não chegou a ver o nascimento do Salvador, mas alimentou o desejo da sua vinda.

No evangelho, Lucas, utilizando uma linguagem apocalíptica, fala-nos da segunda vinda do Senhor. É, na verdade, essa segunda vinda que esperamos no Advento. Ele há-de vir com poder e glória, em oposição ao modo como se apresentou no meio da humanidade, na sua primeira vinda, a do Natal. Mas é essencial fazer memória do nascimento do Senhor e da sua mensagem, pois é este memorial, celebrado e vivido por cada um e uma de nós, que nos prepara para O acolher na sua segunda vinda. Aqui se abre o espaço à esperança e à exigência do desejo, que nos conduz, a partir ao encontro da pobreza e da humildade do Deus próximo, no Menino de Belém. "Vigiai e orai em todo o tempo, para terdes a força de vos livrar de tudo o que vai acontecer e poderdes estar firmes na presença do Filho do homem", adverte-nos Jesus pela boca de Lucas.

Na segunda leitura, Paulo convida-nos a alargar o desejo do encontro amoroso e definitivo com o Senhor, que esperamos. Para isso, havemos de crescer na caridade fraterna, viver em santidade irrepreensível e conhecer as normas sobre o modo de proceder para agradar a Deus. Numa sociedade em que muitos dos nossos desejos são justamente cumulados, peçamos ao Senhor do Advento que nos livre do perigo de uma situação de saciedade, que eliminasse os nossos medos e extinguisse os nossos desejos, porque, então, poderemos cair na ilusão de uma libertação plena. A insatisfação é salutar, porque há sempre em nós uma semente de Deus, que teima em nascer, sob a crosta dura do nosso coração. Vem, Senhor, para ti elevo a minha alma!

Leituras do I Domingo do Advento – Ano C
Jr 33,14-16; Sl 25 (24), 4bc.8-9.10.14; 1 Ts 3,12-4,2; Lc 21,25-28.34-36