Irmã Deolinda Serralheiro

Reflexões sobre as leituras dominicais.

16.10.08

XXIX Domingo do Tempo Comum - A

19/Out/08

A liturgia deste domingo garante-nos que é o Senhor, e ninguém mais, que conduz a história da humanidade, e que, por dentro desta história, vai construindo a história da Salvação. A nossa fé cristã leva-nos a acreditar convictamente na acção de Deus na história e a viver cheios de esperança, porque Deus “não dorme”, segundo o aforismo popular.

Na primeira leitura, Isaías apresenta Ciro, um rei pagão, a ser chamado pelo Deus de Israel como o “seu ungido”, isto é, o “seu consagrado” ou Christós. Embora só os reis de Israel fossem ungidos, Ciro recebe também o título de ungido (messias), porque ele foi o agente de Deus na libertação do povo de Israel, quando este se encontrava exilado na Babilónia, reconduzindo-o a Israel, sua pátria, e facilitando a reconstrução do templo, que havia sido destruído. Deste modo, a Palavra esclarece-nos sobre o papel que o poder civil, mesmo que seja laico, pode e deve ter na construção da obra de Deus, tornando a vida das pessoas e dos povos mais livre e feliz. Tenho consciência de que com o meu trabalho humano estou a construir a história da salvação?

Na terceira leitura, Mateus, a propósito da legitimidade ou não de pagar o tributo a César, põe na boca de Jesus uma resposta lapidar: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Se, por um lado, os cristãos, qualquer que seja a sua responsabilidade na Igreja, devem cumprir integralmente os seus deveres cívicos, pois são cidadãos deste mundo; por outro lado, é importante que saibam distinguir o poder temporal do poder espiritual da Igreja. Sabemos que, ao longo da história, tem havido confusão entre estes dois poderes: perseguição à Igreja, por parte do poder civil ou domínio da Igreja sobre o poder civil; “casamento” destes dois poderes, situações de maior ou menor confusão e fases de convivência pacífica, devido à compreensão das funções de cada poder e ao respeito mútuo que cada um mantém face ao outro. Se o Estado é laico, não o é a sociedade civil, porque esta está matizada com diversas confissões religiosas, como se tem afirmado abundantemente. Como me posiciono eu face a estes dois poderes?

Na segunda leitura, Paulo incita-nos a activar a nossa fé, a reforçar a nossa caridade e a tornar firme a nossa esperança. Sabemos que somos amados por Deus e, por Ele escolhidos para constituirmos o seu Povo. Por isso, não devemos andar pessimistas e derrotados, como se Deus não fosse capaz de cumprir as suas promessas. A sua actuação no coração da história dos que nos precederam na fé é para nós estímulo e esperança de que Ele realizará o seu projecto salvífico, embora nem sempre visível aos nossos olhos humanos, porque Deus actua em jeito de fermento. Tenho consciência crítica face aos direitos e deveres que me incumbem, enquanto membro da Igreja e do povo?

Leituras do XXIX Domingo Comum: Is 45,1.4-6; Sl 96,1-5.7-10 (95); 1 Tes 1,1-5b; Mt 22,15-21

9.10.08

XXVIII Domingo do Tempo Comum (C)

11.Out.08

A liturgia deste domingo apresenta-nos a imagem do “banquete” como símbolo da Aliança entre Deus e o seu povo. Através desta imagem, a Palavra descreve o mundo de felicidade, de amor, de alegria, de fraternidade, que Deus quer oferecer a todos os seus filhos e filhas. A própria Eucaristia foi instituída no interior de um banquete. À Eucaristia chamamos “sagrado banquete”.

Na primeira leitura, Isaías anuncia-nos o “banquete” que Deus vai oferecer a todos os povos. Aceitar o convite para participar neste banquete significa aceitar Deus na nossa vida e, como consequência viver em paz e alegria desde aqui e gozar da felicidade eterna a que somos chamados no fim da nossa vida sobre a terra. E esta felicidade que nos advém da participação no “banquete” celeste é oferecida a todos, mulheres e homens, pobres e ricos, cristãos e pagãos, pecadores e fiéis. É um banquete universal! Não há nenhuma condição humana, que nos possa impedir de ter acesso a este banquete, se nós quisermos. O convite ao banquete foi-nos dirigido no dia do nosso baptismo. Como tenho respondido a esta oferta do Pai? Vivo em comunhão com Ele?

No evangelho Mateus, através de uma parábola, retoma a imagem do “banquete”. Aqui percebemos melhor a universalidade do convite ao banquete, quer dizer, ao Reino de Deus, desde aqui e agora. Porém, somos advertidos de que precisamos de tomar a sério o convite de Deus e dar-lhe prioridade, pois nada nos deve distrair das exigências e compromissos que assumimos com o nosso baptismo. A última parte da parábola, no entanto, confunde-nos. “Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?” E, depois do homem ser castigado, o evangelista conclui: “Na verdade, muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos”. Este incisivo é próprio de Mateus, e parece não ligar bem com a primeira parte da parábola. Contudo, esta interpelação quer realçar a importância das boas obras dos que são convidados, da justiça ou santidade, que simboliza a veste nupcial. O convite do Senhor é gratuito e exigente, ao mesmo tempo. Os frutos que eu produzo, frutos de pecado ou de vida, é que me qualificam, de modo a ser realmente chamado e escolhido, ao mesmo tempo. E, desde agora e aqui, onde vivo. Sou sério e coerente com a vida nova que Jesus me deu no meu baptismo?

Na segunda leitura, Paulo diz-nos que aprendeu a viver na pobreza e na abundância. Não são as coisas materiais, isto é, o ter muito ou pouco, que nos aproxima ou afasta de Deus. O essencial é a nada nos apegarmos, porque só o Senhor é a nossa segurança, só Ele é verdadeiramente rico e magnânimo para fazer face a todas as nossas necessidades. E, quantas vezes, estas são, sobretudo, de natureza espiritual e afectiva. Na minha vida dou prioridade à vida espiritual, de união a Deus e confio nele acima de tudo?

Leituras do XXVIII Domingo Comum: Is 25,6-10a; Sl 23 (22); Fl 4,12-14.19-20; Mt 22,1-14

25.9.08

XXVI Domingo do Tempo Comum (C)

28/Set/08

A liturgia deste domingo realça o facto de que Deus chama todos os homens e mulheres a envolver-se na construção do mundo novo. Diante desta chamada de Deus, cada pessoa pode dizer “sim” e colaborar com Ele, ou dizer “não” e escolher caminhos de egoísmo, de comodismo, de isolamento. A liturgia exorta-nos a um compromisso sério e coerente com Deus, o qual há-de ser traduzido em acções concretas a favor da construção de um mundo melhor, onde a paz, a justiça e a fraternidade sejam pão para todos.

Na primeira leitura, o profeta Ezequiel convida os israelitas exilados na Babilónia a comprometerem-se de forma séria e consequente com Deus. A nós, esta leitura exorta-nos a tomar consciência de que o compromisso assumido no dia do nosso baptismo nos envolve, pessoalmente. Actualmente, há dificuldade em assumir compromissos e em ser coerente com eles. Tudo se relativiza, até as promessas mais sagradas, como o matrimónio e a consagração a Deus. Assumir os nossos compromissos pessoais na construção da comunidade e do mundo significa sentir-se solidário no bem e no mal e não aligeirar a carga quando as coisas correm mal, atirando as culpas para as estruturas ou para as pessoas mais responsáveis. Como me situo diante dos meus compromissos?

O evangelho conta a parábola dos dois filhos: um que disse “não”, mas obedeceu, e outro, que disse “sim”, mas desobedeceu. Jesus tinha diante de si os gentios, simbolizados no primeiro filho, e os judeus, simbolizados no segundo. Os segundos, cumpridores da lei de Deus, rejeitaram o Messias, que lhes foi enviado pelo Pai, ficando seus adversários; os primeiros, publicanos e mulheres de má vida, desconhecedores da lei de Deus, aceitaram Jesus e a sua mensagem de amor, tornando-se seus discípulos. O “sim” que Deus nos pede não é uma declaração teórica de boas intenções, sem implicações práticas, mas é um compromisso firme, coerente, sério e exigente com o Reino, com os seus valores e com o seguimento de Jesus Cristo. O verdadeiro crente não é aquele que “dá boa impressão”, que finge respeitar as regras e que tem um comportamento irrepreensível do ponto de vista das convenções sociais, mas é aquele que cumpre, na realidade da vida, a vontade de Deus. Procuro, de modo habitual, conhecer a vontade de Deus para a por em prática?

A segunda leitura apresenta aos cristãos de Filipos, actual Macedónia, o exemplo de Cristo. Desta leitura podemos reter o hino cristológico, que ela contém, para que cultivemos entre nós os mesmos sentimentos que estão em Cristo Jesus: Ele que tem o próprio ser de Deus, esvaziou-se (sem perder a condição divina), fazendo-se homem e servo de todos, e rebaixou-se pela sua paixão e morte. Por isso, foi exaltado e constituído Senhor de todos os seres visíveis e invisíveis. Esta é a lógica de Deus: Só pelo caminho da humildade e do amor fraterno nos tornamos grandes aos seus olhos. Como cristão e cristã sinto-me chamado por Deus a seguir Jesus e a viver ao seu jeito, na entrega total ao Pai e aos seus projectos, por amor?


Leituras do XXVI Domingo Comum: Ez 18,25-28; Sl 25 (24), 4-9; Fl 2,1-11; Mt 21,28-32

16.9.08

XXV Domingo do Tempo Comum (A)

19.Set.08

A liturgia deste domingo esclarece-nos sobre o amor incondicional de Deus para com todos os seres humanos, independentemente do momento em que eles se voltam para Ele. Convida-nos a descobrir a grandeza e a magnanimidade do nosso Deus, cujos caminhos e pensamentos estão muito acima dos nossos caminhos e pensamentos. Chama-nos a inverter os nossos projectos e a orientá-los para Deus.


A primeira leitura pede aos crentes que procurem o Senhor. Procurar Deus, é um movimento que exige uma transformação radical, uma conversão, para que os nossos pensamentos e acções sejam modelados sobre o modo de pensar e de agir do próprio Deus. A conversão exige que sejamos contracorrente à cultura pós-moderna, que prescindiu de Deus e afirma que a liberdade e a felicidade se constroem à margem dele. O texto interpela-nos sobre a imagem que temos de Deus, pois a conversão implica, também, uma mudança na forma de ver Deus, o que exige uma pessoal relação com Ele. Empenho-me em aprofundar a minha fé e esclarecer a “visão” que tenho de Deus?

O evangelho diz-nos que Deus chama à salvação todos os homens e mulheres, sem considerar a sua antiguidade na fé, as qualidades ou os comportamentos anteriormente assumidos. A Deus interessa apenas a forma como se acolhe o seu convite. Pede-nos uma mudança de mentalidade, para que a nossa relação com Ele não seja marcada pelo interesse, mas pelo amor e gratuidade. A parábola mostra-nos que Deus, prefigurado no proprietário da vinha, está sempre a passar por nós, a vir ao nosso encontro, para nos oferecer, gratuitamente, a sua amizade. Mas é necessário que Ele nos encontre vigilantes para nos decidirmos a ir trabalhar para a sua vinha. Na comunidade cristã, é a decisão pessoal de ir trabalhar para a vinha do Senhor que marca a diferença, independentemente do momento da conversão de cada um. Terá alguma lógica, à luz dos ensinamentos de Jesus, pensar que tenho direito a uma maior recompensa por ser mais “antigo” na prestação de serviços a Deus e à comunidade?

A segunda leitura apresenta-nos o exemplo de Paulo, que abraçou, de forma exemplar, a lógica de Deus. Renunciou aos interesses pessoais e colocou no centro da sua existência Cristo, os seus valores, o seu projecto. “Para mim, viver é Cristo”, afirma o apóstolo. Esta frase diz-nos que isto é o essencial e o único necessário para ser discípulo ou discípula do Senhor Jesus. Há muitos cristãos e cristãs, que assim se confessam, mas que não praticam o «Viver Cristo». O mesmo é dizer que não O conhecem tal como o Evangelho no-lo apresenta e, por isso, não podem ser seus imitadores, nem conhecer o Pai, pois conhecer Jesus é conhecer o Pai, pela acção do Espírito Santo. Cristo está, verdadeiramente, no centro da minha vida?

Leituras do XXV Domingo Comum: Is 55,6-9; Sl 145 (144); Fl 1,20c-24.27a; Mt 20,1-16a

14.9.08

Exaltação da Santa Cruz

A liturgia deste Domingo, Festa da Exaltação da Santa Cruz, orienta o nosso olhar de fé para a cruz de Jesus. Nela contemplamos a prova do maior amor do nosso Deus, que tanto se aproximou de nós, que nos deu o seu Filho e o entregou na ignominiosa morte de cruz para que o pecado e o egoísmo em que vivemos atolados sejam vencidos. Ao morrer na cruz, em total entrega de amor ao Pai e à humanidade, Jesus aponta-nos o caminho do amor, único que nos conduz à vida plena e feliz, em Deus.

A primeira leitura fala-nos da caminhada geográfica e espiritual do povo de Deus pelo deserto. Foi árduo este percurso e nem sempre as opções do povo coincidiram com o projecto de Deus. Porém, o Senhor esteve sempre presente junto do povo para o ajudar a perceber as suas más escolhas e para o convidar a ir sempre mais além em busca da verdadeira liberdade espiritual. A serpente de bronze levantada sobre um poste, através da qual Deus cura o seu povo significa a vontade de Deus em nos dar vida e é um símbolo dessa força salvífica que se derrama da cruz de Cristo. Esta leitura garante-nos que Deus nunca abandona nos abandona e que sempre nos ajuda a perceber o sem sentido das nossas opções erradas, convidando-nos a nunca parar nessa busca da vida e da verdadeira liberdade. Estou atento aos sinais de Deus nos acontecimentos e encontro luz e força para as minhas dificuldades na contemplação da cruz de Jesus?

No evangelho, João recorda-nos que Deus nos amou de tal modo, que enviou o seu Filho único ao nosso encontro para nos oferecer a vida eterna. Convida-nos a olhar para a cruz de Jesus, a aprender com ele a lição do amor total, a percorrer com ele o caminho da entrega e do dom da vida. Ao contemplar Jesus suspenso da cruz podemos perceber quão importante é cada pessoa aos olhos de Deus. Por nós e para nossa salvação, o Pai entregou o seu Filho até à morte de cruz. Deus quer-nos vivos e felizes. Somos tentados a acusar Deus pelos males que nos afligem, pelas guerras, pelas injustiças, pelas catástrofes que trazem sofrimento e morte a tantos milhares de pessoas. O evangelho de hoje afirma com clareza: Deus ama o ser humano e oferece-lhe a vida. O sofrimento e a morte não vêm de Deus, mas são o resultado das escolhas erradas feitas por nós. Porém, sabemos que pela fé podemos descobrir o amor de Deus por nós mesmo no meio dos males que se abatem sobre nós. Costumo “ler” os acontecimentos negativos à luz da fé, ou revolto-me habitualmente contra Deus diante do mal?

Na segunda leitura, Paulo afirma que Jesus renunciou aos seus direitos como Filho amado de Deus para escolher o caminho da obediência ao Pai e do serviço à humanidade, até ao dom da sua vida. A cruz é a expressão máxima da opção que fez. É esse mesmo caminho de vida que os crentes de todas as épocas e lugares são convidados a acolher e a percorrer. Na minha vida pessoal sigo, normalmente, o exemplo de Cristo, isto é, o caminho da renúncia e da cruz, sabendo que esta é a via da vitória sobre o mal e a morte?

Leituras da Festa da Exaltação da Santa Cruz
Num 21, 4b-9; Sl 78 (77); Fl 2,2-11; Jo 3, 13-17